Uma semana atrás, desembarcava no aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, depois de passar por toda a bur(r)ocracia para sair do país no Aeroporto de Guarulhos e para entrar na Argentina.
O primeiro choque, obviamente, é dar de cara com uma funcionária da alfândega argentina - fadada a continuar naquele posto pelo resto da vida, pela sua aparência digamos um tanto cansada daquilo - falando em espanhol.
Isso não deveria ser um choque, já que, sou um quase-argentino desde que lá no alto dos meus 14 anos resolvi deixar o cabelo crescer e muita gente já tenha me chamado de "argentino", "Messi" e outros nomes e "apelidos carinhosos" portenhos.
Uma semana atrás, provavelmente nesse exato momento (quase 21h30min) a seleção argentina jogava contra o Uruguai pelas quartas de final de Copa América de futebol. Jogava e perdia, pra alegria de todos os brasileiros dentro daquele ônibus cheirando a cigarro que nos levava aos nossos respectivos hotéis.
Depois de passar por um pedágio logo na saída do aeroporto (foram mais três até chegar ao hotel), já não tinha mais a sensação de estar na Argentina.
A rodovia suspensa por onde o ônibus circulava para chegar ao centro de Buenos Aires em muito lembra o elevado Costa e Silva, aqui na capital paulista, inclusive pelos prédios antigos circundando-o. A diferença é a enorme quantidade de carros muito velhos que circulam pelas rodovias, avenidas e ruas de lá.
Pelo caminho, já dá para notar algumas diferenças entre as próprias pichações daqui e de lá. Em São Paulo, é raro encontrar alguma pichação com cunho político. Lá, elas são maioria, pelo menos no centro de Buenos Aires.
Dia seguinte. Dia de jogo do Brasil e de city tour pelos bairros da capital. Na Plaza de Mayo, tem-se a certeza de que os argentinos (e talvez boa parte da américa espanhola) seja um povo bem mais revolucionário que o de parte da américa portuguesa, libertado pelo filho do Rei: um acampamento montado há mais de três anos ali, intacto em frente à Casa Rosada. O motivo? Desaparecidos durante a ditadura militar, que a nossa presidente Dilma - ela mesma uma vítima da ditabranda brasileira - quer deixar descansar em paz.
Não se iluda, o centro de São Paulo é igual o de Buenos Aires. Maldita globalização. Guardadas as devidas proporções, a Praça da Sé, o Obelisco (nem o nome muda), o Vale do Anhangabaú e as ruas Boa Vista e Vinte e Cinco de Março também estão na Argentina. E até mesmo não necessariamente o centro: as avenidas Nove de Julho (com o mesmo nome) e Oscar Freire também tem uma cópia lá.
Passeando pela 25 portenha no horário do jogo do Brasil, de repente, gritos ecoam pelas ruas. Vitória do Brasil? Óbvio que não. Depois descubro o vexame brasileiro: quatro pênaltis perdidos e ainda tenho direito a ver a comemoração paraguaia perto do hotel onde estava.
Outra diferença um tanto quanto revoltante entre São Paulo e Buenos Aires: apesar da forte crise que atinge a Argentina desde 2001, lá dá para andar sossegado pelo centro durante a noite (apesar da escuridão) sem medo de ser assaltado. Claro que há gente morando nas ruas - inclusive na esquina do hotel, perto do Obelisco - mas é raro ver trombadinhas ou gente pedindo dinheiro nas calles portenhas. Durante os quatro dias que estive lá, se contei umas 10 pessoas fazendo isso foi muito.
Mesmo com as sucessivas crises que atingiram a Argentina, todos os dias os restaurantes e cafés do centro de Buenos Aires estavam cheios. Isso que, em três pessoas, não se gasta menos de 80 pesos (cerca de R$ 45 ou US$ 20). Mesmo o comércio popular é um pouco estranho. Uma camiseta vendida no meio da rua por 70 pesos é chocante, não!?
Segunda-feira, dia dar uma volta no metrô portenho. Em São Paulo, como se sabe, a passagem custa a simplória bagatela de R$ 2,90. Se fosse em Buenos Aires, custaria cerca de R$ 0,60. Isso porque o Estado Argentino subsidia parte do bilhete. Já aqui, muito pelo contrário: barreiras e mais barreiras comerciais, mais conhecidas por impostos, pululam em tudo o que está disponível para se comprar nesse país.
Essa semana, saiu uma pesquisa que mostrou que o brasileiro gasta mais pagando impostos - cerca de R$ 8 bilhões - do que com roupas e alimentação. Vale lembrar, que todos nós, pobres proletários, trabalhamos por meio ano só com pagamento de tributos ao governo. O que ganhamos em troca? Mais impostos e aumento de preço nos alimentos, combustíveis...
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